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A IMPORTANTE DECISÃO
Ano I - Nº 2
  Ano I - Nº 2
  Álbum de retrato é maravilhoso. Nos faz reviver o que não existe mais. Essa foto me trouxe à tona o conselho do meu pai: “– Sabe, meu filho, hoje é o seu dia. Agora mais do que nunca você terá que tomar decisões que poderão afetar os alicerces da sua própria vida”.
Ainda me vejo ali de joelhos e com os olhos bem fechados ouvindo a voz que ecoava no silêncio. Eu estava prestes a assinar a doação da minha história. Isso tudo porque uma certa pessoa me fez perceber que jamais se muda o tempo quando se continua ouvindo o egoísmo. Tudo estava mudando!
Não sei por que, mas naquele momento me lembrei da aula de História, quando o professor perguntou o que era comum a todas as culturas. É engraçado como o casamento sempre traz um frisson entre as pessoas. Seja a quem vive fugindo dele. Seja a quem vive sonhando com o tal esperado dia. Lembrei também dos amigos que comentavam no bar da esquina e dos especialistas que povoam os canais de televisão falando sobre o assunto ou até dos jornais que continuam concedendo páginas e mais páginas de destaque ao casamento das celebridades.
Mas o que importa saber se o casamento entre os apresentadores de televisão Angélica e Luciano Huck é por amor ou não? O que me acrescenta saber que o cachê da modelo Daniella Cicarelli subiu cerca de 15 mil reais para quase 40 mil reais logo no início do namoro com o jogador de futebol Ronaldo?
Eu estava apaixonado e acreditando no ato solene de união entre duas pessoas. Todos ditavam a incondicional verdade de que casamento deve ser eterno e tem que estar baseado no mais límpido sentimento que é o amor. Sei que muitos acham que isso não passa de puro devaneio poético, para não dizer hipocrisia. Mas e daí? Eu sei é de mim! Recordo-me bem do sentimento de pena que senti ao aprender no colégio que o coração na maior parte da história dos casamentos dificilmente teve voz ativa. O casamento arranjado, por muito tempo, sempre foi a tônica. Impossível esquecer o triste olhar do professor ao perguntar, como forma de desabafo: “– Então, por que não dizer que essa imposição ainda sobrevive? Somos ou não somos uma sociedade tradicional?”. Hoje talvez eu lhe dissesse que o que tenha mudado seja a cor do livre-arbítrio.
Eu sei que o casamento cada vez mais se transforma num produto. Ele ganhou um ar empresarial e se tornou uma máfia industrializada. Cartórios, lojas, igrejas, casas de festas, buffet, fotógrafos, cinegrafistas, dentre outros, faturam com a reunião de convidados que torcem pela felicidade do casal. Nossa! Fiz força para não lembrar de quanto gastei e de quantas dívidas estariam por vir. Sentia-me ameaçado pela preocupação em não me conceder uma veemente lua-de-mel. Acho que foi por essa previsão que me presentearam aquele comprimidinho azul na despedida de solteiro. Contudo, até hoje ainda não sei o seu gosto.
Viro mais duas páginas do álbum. Chego na foto que a menininha entra com as alianças. Por alguns instantes questionei-me sobre o que é amor. Quando saber que o tal sentimento foi encontrado? Qual a diferença dele para a paixão? E de como eu queria que alguém me ouvisse antes do SIM.
Talvez esse pensamento ofenda os que sejam cegos pela fé, pois costumam pregar que uma relação conjugal deve nascer no coração de Deus para depois ser manifesta na vida dos domesticáveis homens santos e sensíveis à Sua voz. Todavia, pensando bem, um casamento abençoado talvez seja o que todos querem, mas não há como me prender à teologia em plena era do conhecimento científico. Afinal, desde do período Renascentista o homem procura questionar a imutável ordem divina.
Vários eram os pensamentos embaralhados e sem sentidos que navegam pelo meu pensar. Até me lembrar da moral do conto de fadas que a minha mãe sempre me ninava: “um dos grandes segredos da felicidade é saber criar condições para que a vida dependa de nós”. Foi quando o meu nome foi entoado intensamente. Eu despertara do transe. Mais tarde me disseram que somente após a terceira chamada olhei para o padre. Ainda sinto o suor da testa. Alguns murmurinhos aumentaram a minha aflição. Os olhos esbugalhados diziam não ao passado recente. Eu não poderia mais fazer festas com o tema tribalista “eu não sou de ninguém. Eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também”. Naquelas frações de segundos eu disse adeus à Aninha, Maria Paula, Mônica, Fernanda e à Letícia que tanto gostava de ir ao Arpoador e sentar na pedra que invade o mar separando a Praia de Copacabana. Assistir ao pôr-do-sol e namorar tendo de um lado as praias de Ipanema e do Leblon, com o morro Dois Irmãos ao fundo; e do outro, as praias do Diabo e Copacabana era o cenário perfeito para a noite não acabar por ali. Mas tudo bem! É a lei da vida. Tudo dura o suficiente para sentirmos saudades. O choro do meu afilhado de dois aninhos me desperta novamente. Eu sabia o que eu queria, mas o medo me dominava. O meu coração só se apaziguou quando olhei no fundo dos olhos da minha noiva. Não precisava de mais nada. SIM! SIM! SIM! Eu aceito.
Eu ainda sinto a mesma coisa sempre que vejo aqueles olhos azuis. Aquele olhar me faz sentir diferente. Ele me faz acreditar em mim mesmo. E agora ao fechar esse álbum percebo que às vezes temos que mentir pra ser sinceros. Qual desculpa darei por ter chegado mais uma vez tarde e ter ficado aqui no sofá a noite inteira?