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CORRIQUEIRAS OBSERVAÇÕES
Ano I - Nº 5
  Ano I - Nº 5
  Mais um dia de trabalho. É sempre a mesma coisa. Acordar cedo, escovar os dentes, tomar um banho correndo por causa dos dez minutinhos a mais que fiquei na cama, beber um copo de leite e dar um beijo de despedida na esposa. No elevador do prédio dou os últimos ajustes. Será que ainda aprenderei a acertar esta gravata? Ônibus até o Estácio e metrô lotado. Na fila pra comprar bilhete o barulho das roletas desperta o meu sonambulismo. Na plataforma a única regra é não ultrapassar a faixa amarela. Mas cuidado, pois foi dada a largada! O abrir das portas de cada vagão lembra-me a narração do Jockey Club. O atropelamento é pela dança das cadeiras. Como nunca gostei de sentar no colo de ninguém, faço questão de ser o último a entrar. Encosto a cabeça no meu próprio braço apoiado ao teto e observo. Há pessoas bocejando; outras de óculos escuros; e outras que reclamam de tudo e vivem repetindo “(...) só no Brasil mesmo!”. Tem também os que tentam ler em pé mesmo! Há os que tentam puxar assunto com as moças mais bonitas ou até os que ficam apenas na troca de olhares. A cada estação há sempre algo de novo. Contudo, uma coisa não muda, o tocar dos celulares. De um tempo pra cá o que mais vale é a criatividade dos toques. Brasileirinho e Nona Sinfonia de Beethoven são alguns temas que embalam a viagem. Na estação da Cinelândia chego ao meu destino. Como reforço do meu café da manhã como um salgado e bebo um refresco por apenas um real. Ao sair da estação é notória a diversidade do Centro da cidade. Cinema, comércio, teatro, arquitetura e pessoas de várias procedências ditam a velocidade do dia-a-dia.
Em frente ao trabalho paro na banca de jornais que mais parece um bazar e decido qual periódico levar. Entretanto, antes de pegar as moedas do bolso para pagar o seu Giovane, indago-me sobre o que é incomum hoje em dia. Essa foi a pergunta que fiz quando ouvi a tranqüilidade do menino que deveria ter seus quinze anos comentando em voz alta que haviam morrido trinta pessoas numa chacina na baixada fluminense. Nada mais nos surpreende. Tudo é normal! Liberações sexuais, roubos, violências, drogas, magia negra, ganância, falsidade, desrespeito, individualidade, guerras, mortes etc. A troca de valores é tão absurda que quando alguém devolve uma maleta cheia de dinheiro o julgamos como tolo e dizemos “achado não é roubado, quem perdeu foi relaxado”. O que aconteceu com o suor do nosso trabalho? De repente, sinto-me como um excluído por não querer participar desse Big Brother. Mas quanta gente não conserva o doce delírio infantil de ter instantaneamente tudo o que se sonha? Ao ver o meu colega de trabalho comprando algumas raspadinhas sem ao menos dizer bom-dia, me lembrei do meu antigo vício em jogos. Eu precisava enriquecer. Vendado, eu não percebia que tinha tudo o que precisava pra sorrir. E somente com o bater da porta após uma briga com a minha esposa percebi que sorte não se compra. Na rua, as crianças correndo me trouxeram o arrependimento.
É engraçado como travessuras, contradições, erros e desejos sempre farão parte do nosso cotidiano. Não adianta! Tem coisas que nunca mudam. Contudo, há muitas outras que só dependem de cada um de nós. Não quero que os princípios se transformem apenas em simples discurso narrativo da manipuladora Hipocrisia. Mas será que isso será apenas um permanente desejo egoísta? Foi quando finalmente entendi o ditado popular: “uma andorinha só não faz verão”. Nossa! Tá na hora de subir ao trabalho. Já estou cinco minutos atrasado.