| EU NÃO ENTENDO |
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Hoje acordei mais cedo do que o habitual. Faltavam mais de 30 minutos para o despertador soar. Fiz minha higiene matinal. Aproveitei e levei o café-da-manhã na cama para a minha amada. Estranhamente bem disposto já que hoje completo seis meses desempregado, traço um roteiro de entrega de currículos e despeço-me das crianças que acordavam afim de irem para escola.
Na cabeça, um mundo que gira cada vez mais rápido lembra-me que não tenho muito tempo. Preciso logo de um trabalho. Ser sustentado pela esposa e não ter dinheiro sequer pra comprar um DVD me angustia. Com o dinheiro contado pego o ônibus para o centro da cidade. Não tenho hora pra voltar e muito menos um trocado pro lanche. O Sol já castigando de manhã cedo anuncia que em breve começará o horário de verão. Dou sinal para o terceiro ônibus, sem ar condicionado, o Parador é mais barato! É impressionante como mal começou o dia e algumas pessoas já estão amarguradas. A trocadora nem respondeu ao meu bom-dia. E cada passageiro sem trocado ela virava os olhos e falava para esperar. Até que uma hora ela explodiu: “_Passageiro tem que vir com o dinheiro trocado. Não sou banco.” Pronto! Começava a guerra. Falatório e insultos fizeram acordar quem tirava uma soneca. Após o tumulto consegui sentar na janela. Mas a fileira atrás do motorista não é muito indicada. Pois lá o Sol bate mais forte. A sensação que eu tinha era que até os meus óculos transpiravam. Chegando em Bonsucesso, perto da linha amarela, um engarrafamento sem fim nos obrigou a parar. Os vendedores ambulantes de água e refrigerante começaram a encher os bolsos. Todos queriam algo pra refrescar. Olho pela janela e um carro de passeio que seguramente ia para a praia aumenta o volume do rádio: "cidade maravilha purgatório da beleza e do caos". Não há nada melhor do que a juventude. A falta de responsabilidade nos faz crer que somos capazes de tudo.
Mais de trinta minutos e não havíamos andado nem meio metro. O motorista já tinha até desligado o motor. Não havia nada a ser feito a não ser esperar. Os mais bem afortunados podiam ligar para o trabalho informando o motivo do atraso. Naquela altura dos acontecimentos não importava mais o motivo da parada: Guarda Nacional; manifestação; batida ou qualquer outro acidente. O semblante esgotado de todos retratava a mais límpida indignação. Dou mais uma olhada pela janela e vejo uma jovem grávida fumando. Foi quando, sem motivo algum, comecei a ter vários pensamentos não necessariamente correlatos, mas com uma coisa em comum: o que não consigo entender. Eu não entendo como magistrados que concedem habeas-corpus aos presos para estarem com seus familiares em datas festivas não sofrem nenhum tipo de multa, advertência ou sequer dão uma satisfação a sociedade, quando esses cidadãos de boa conduta e completamente regenerados extinguem por conta própria a pena e não voltam para as celas. Eu não entendo como a justiça permite que um prisioneiro vá passar os dias dos pais em casa se este não tem pai tampouco filhos. Suspeito? Claro que não! Todos sabem que os interesses pessoais são indisponíveis e o que sempre deve prevalecer é a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses coletivos. Outra coisa que também não entendo é porque os nossos políticos possuem a vitaliciedade dos Cofres Públicos enquanto que o futuro aposentado será obrigado a contribuir com o INSS. Ah! Já estou eu falando de política novamente! Meus amigos não agüentam quando eu começo... Mas só de lembrar que os nossos governantes usufruem da irredutibilidade de subsídios... Nossa! Que raiva! Mas talvez seja por isso que a nossa inflação seja praticamente inexistente. Depois me criticam quando digo que acredito em Papai Noel. Melhor crer nisso do que na real necessidade e implicações dos nossos Ministérios. Aliás, alguém sabe quantos e quais são?
De repente, barulho de tiros pertinho do ônibus. Após o susto todos correram para o lado esquerdo para as apurações. Um menino morto a alguns metros e a esposa do motorista, que reagiu ao assalto, ferida gravemente. Mais tarde no noticiário da noite fiquei sabendo que a mãe de dois filhos não suportara ao ferimento e faleceu ainda no local. Não tinha como nenhum atendimento médico sequer se aproximar do local. Estava tudo parado! Ah! O comparsa do assaltante fugiu por entre os carros. É impressionante o aumento da violência. Hoje em dia eu ando com medo no bairro onde cresci. “_Você sabia que os crimes praticados por jovens cresceram na zona norte do Rio, onde o menino, João Hélio Fernandes foi morto?” Puxa assunto um senhor de cabelo engraçado que sentava ao meu lado. Após um breve bate-papo lembrei-me de mais uma coisa a qual eu não entendo. Por que turistas têm escolta policial em Pernambuco? O que aconteceu com a cordialidade brasileira? Será que alguém tem idéia do que estamos nos transformando? Enquanto vou tentando achar respostas recordo-me, que no fim de janeiro desse ano, no estado do Paraná, produtores jogaram no lixo 20 toneladas de batata por dia. Há coisas que definitivamente eu não consigo entender!
O ônibus acabou de andar um bom trecho. A pista deve estar sendo desobstruída. Contudo, antes que ele parasse novamente vi no outdoor a propaganda de uma revista semanal. Por isso, foi impossível não lembrar dos fundadores da Igreja Renascer em Cristo, Estevam Hernandes Filho e Sônia Haddad Moraes Hernandes e como ainda possuem credibilidade diante dos seus fiéis. Porém, que saber o que me assustou mais? A revista ter sido condenada a indenizar a Igreja Renascer, a bispa Sônia e ao bispo Estevam em mil salários mínimos por danos morais. Agora eu sei porque a fé e a justiça são cegas.
O buzinasso para que os carros dessem um jeito para a ambulância passar alvitrou-me da jovem em trabalho de parto, de 18 anos, que morreu após ter ido a quatro hospitais sem obter êxito no atendimento. Negligencia médica? Claro que não! São apenas dados estatísticos. Quem se importa com isso?
Já faz mais de uma hora que estamos nesse engarrafamento. O sol ta de matar. Sorte que entre os passageiros havia uma estudante de enfermagem. Pois já havia gente passando mal com o calor. E por falar em calor... Tá aí mais uma coisa que não entendo. Quem liga para o aquecimento global? Afinal, a previsão é de que até o ano de 2100 as temperaturas aumentem até seis graus. Todavia, isso é um problema do futuro. Não viverei tanto tempo assim. Só pode ser isso que o senso comum pense. Não é possível!
Finalmente começamos a andar direitinho. Um caminhão havia perdido o controle, batido em alguns carros na via Amarela, o que resultou na sua queda do elevado. Tudo parou porque um motorista após descobrir que a sua esposa o traía com o seu irmão ficou bêbado e resolveu ir trabalhar. De quem é a culpa e o dolo?
Trânsito normalizado, passageiros gritam comemorando sem ainda terem a mínima idéia do acontecido. Foi quando ouvi a passageira sentada logo atrás perguntar para a amiga como havia sido o paredão do Big Brother. Eu não entendo o fascínio exercido por esse tipo de programa.
O velhinho do meu lado se despede como fossemos bons amigos, levanta e desce no próximo ponto. Caramba! Eu acho que não ouvi nada do que ele falou comigo. Eu devia estar em transe com o emaranhado de pensamentos. A estudante que senta no lugar do senhor diz para amiga, que ficara em pé, que estava doida para chegar o dia 23 de abril, Dia de São Jorge, para ir a igreja agradecer o cumprimento de um pedido e depois iria subir a escadaria da igreja da Penha de joelhos para cumprir a promessa. Eu não entendo a idolatria por esses chamados santos. Religião, política e futebol, todos sabemos que não se deve discutir. Todavia, a religião católica me intriga muito! Se o catolicismo tem como doutrina os ensinamentos escritos na Bíblia, em qual livro aparece São Jorge, São Cosme e Damião, Nossa Senhora da Aparecida, dentre tantos outros? Pois eu já li a bíblia toda e não os encontrei. No entanto, em Êxodo, capítulo 20, parágrafos 3,4 e 5, encontro o seguinte: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto...” Como entender?
Já estou quase descendo. Daqui a três pontos começarei a minha caminhada por um emprego novo. O que mais me aborrece é que nesses meses desempregado já enviei mais de 100 currículos. Seja via internet ou batendo nas portas das empresas. Isso sem falar das empresas de currículo On-line, as quais sou cadastrado! E até agora nem uma oportunidade de entrevista me foi concedida. Ao descer do ônibus enumerei mais algumas coisas as quais não consigo entender: o que tenho feito de errado? Será que não estou bem vestido? Será que não sou um bom profissional? Será o meu currículo? No que sou avaliado?
Antes de atravessar a Avenida Rio Branco com a Presidente Vargas me veio um flash-back do meu ultimo emprego. Uma produtora prestadora de serviço para uma editora de São Paulo. De repente, essa editora concluiu não precisar mais investir aqui no Rio e somada a uma péssima administração da produtora fecham-se as portas. O dono da empresa, meu padrinho de casamento, recebeu todo o dinheiro dos trabalhos prestados, contudo não os repassou para nenhum funcionário. Comigo, ainda teve um fato mais triste... Por ter sido meu padrinho de casamento ele falou que me daria um fogão de presente e que quando eu visse o produto poderia efetuar a compra no meu nome, dependendo do preço, em suaves parcelas, que ele as honraria. Isso aconteceu com as três primeiras. Depois disso o meu nome foi para o SPC. Agora estou recém-casado, desempregado e endividado.
Às vezes, fico pensando como seria o mundo se cada um se fizesse uma simples pergunta: o que preciso fazer para consertar o que está ao meu alcance?
Mas chega de tristeza e de baixa estima! Tá na hora de fazer acontecer! Hoje vai ser diferente. Tenho convicção disso. Desejem-me sorte. Já estou na portaria da primeira empresa que irei hoje. E hoje, eu só volto pra casa com a minha carteira de trabalho assinada. Afinal, o meu lema é: “renunciar nunca, enfraquecer-me jamais”. |
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