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EXEMPLO VIVO
por Beto Costa
  por Beto Costa
  Andando nas nuvens e nadando em flores era o que eu sempre dizia até a semana passada, quando completamos 36 meses de casados. As mãos dadas tornavam as descobertas mais doces. Não havia nada mais fascinante do que o novo. Vê-la sorrir era tudo do que eu precisava. Se me perguntassem o que é felicidade, eu a definiria em poder estar ao lado dela toda vez em que os seus olhos de jabuticaba são abertos pela manhã. Embora eu só tenha lhe levado café-da-manhã na cama enquanto éramos noivos, eu adoro acordá-la. O rosto inchado e o cabelo desgrenhado a fazem mais irresistível. E quando ela colocava a cabeça no meu peito e descansava dizendo ser o melhor lugar no mundo?
Mas de repente as coisas começaram a ficar mais difíceis. As brigas aos poucos começaram a tonificar o preto e branco. Lentamente o indissolúvel foi conquistando individualidade. E aos poucos as mãos começaram a ser desdadas.
Minado, o alicerce daquele recente laço matrimonial começa a deteriorar. O horizonte não é mais a eternidade. O coração sente, mas o orgulho seca as lágrimas mesmo antes de deslizarem pelo rosto. A caminhada rumo à cidade Futuro perde o asfalto. Contudo, o terreno arenoso continua oferecendo direções distintas. Mas será que eu sei pra onde ir? Escolher nem sempre é fácil.
A música “Somewhere over the rainbow” toca no rádio da vizinha chata que lava roupa. O meu silêncio interior me arrebata à sala de estar. Era aqui que dançávamos quase todo dia depois do trabalho. Nossa! Eu nunca havia reparado em como essa casa é grande.
Não sei explicar... Mas o Vazio adquiriu a patente de Incomensurável. Aprendi a sentir saudade das brincadeiras, da correria pela casa, da briga de travesseiro, de quando inventávamos musiquinhas e da gargalhada que embalava os meus passos. É difícil descrever a graciosidade daquela menina-mulher. “Os vizinhos vão pensar que nós temos filhos, mas nós não temos filhos...” era a frase que nos animava mais e mais a continuarmos com as cosquinhas.
Sentado na minha cadeira de balanço, tento encontrar um motivo. Será que foi o meu desemprego? Podem ter sido também os estudos – contrários à minha vontade – para um concurso público. Esse tipo de estabilidade é simplesmente uma questão mercenária. Afinal, pergunte a uma criança o que ela quer ser quando crescer. Duvido que dirá técnico do TRE (Tribunal Regional Eleitoral). Embora eu esteja aproveitando o tempo que tenho para estudar com afinco, sei que se obtiver êxito na prova estarei me prostituindo. A única coisa que sei exercer é a função de jornalista! Admito não ser o melhor, mas é o que tenho vontade de fazer pra toda vida. Não ter o capital de giro mínimo para sustentar a vida a dois só não é pior porque a minha amada tem um emprego. Por muitas vezes fui insensível trocando a noite com ela para ficar na frente do computador. Se me permite um conselho: não leve trabalho pra casa. A família cresce e acabamos nos afastando num piscar de olhos.
Antes de pegar alguns álbuns de retratos na estante, constatei a legítima regra da vida: “Só se dá o verdadeiro valor a algo ou alguém quando não se tem mais posse dele”. As fotos do casamento e da lua-de-mel em Porto Seguro me fizeram chorar de soluçar. Um desespero me abraçou. O corpo ficou gélido. Os olhos vermelhos arderam como nunca antes. As pernas tremeram mais do que no dia em que o chefe de reportagem analisou a minha primeira matéria antes de ser encaminhada ao editor. A testa suava mais do que o habitual. Sem ar para respirar e me afogando nas lembranças, não foi difícil a labirintite me jogar ao chão. Senti como se o meu espírito não pertencesse mais ao meu corpo. Naquele momento eu vi um copo de vidro em câmera lenta caindo. Ao avistar um espelho, vi meu rosto cheio de sangue. Duas crianças choravam muito enquanto um papel que aparentemente era uma carta pegava fogo.
Acordei do desmaio com o telefone que não parava de tocar. Não havia mais espaço para tanto recado na secretária. Ao atender o telefone, a vizinha chata pedia para eu descesse imediatamente. O que poderia ser? Será que a cortina que estendi no varal mais cedo caiu no quintal daquela velha? Ainda esbravejando sozinho, lembro que lavar a cortina era o desejo da minha doce esposa: “Será que você poderia pelo menos estender quando a máquina de lavar parar?”. Essa frase foi a sua despedida para mais um dia de trabalho. Devido ao clima ainda pesado, nem perguntei se ela havia melhorado do enjôo.
Descendo a escada, vejo alguns vizinhos subindo ao meu encontro. Nunca mais esquecerei aquele segundo andar. Um deles me abraçou forte e disse pra eu ser forte. “O que aconteceu?”, foi a minha óbvia indagação. Ninguém me respondeu. Apenas se olharam e me levaram à rua. A minha Maria Eduarda havia sido atropelada em cima do canteiro que dividia o sentido do trânsito. Um adolescente embriagado indo para a festa da faculdade levava a minha esposa aos céus. Uma testemunha disse que enquanto ela esperava para atravessar mexia no celular e nem se deu conta do carro sem controle. É tudo do que me lembro.
Acordei na casa de um amigo e com o médico lhe passando a receita. Sem entender muito bem, pensei ter acordado de um pesadelo. Ainda com a vista embaçada, enxerguei a bolsa que eu tinha lhe dado em comemoração ao nosso primeiro mês de casado. Tudo estava muito confuso. À revelia, fui pra casa. E antes de me jogar na cama a chorar a campanhia toca. Uma menina linda, de cinco anos, toda de rosinha, pergunta se está tudo bem e fala que o papai dela pediu pra entregar. A filha do vizinho de cima era como nós queríamos que fosse a nossa filhinha. Imaginávamos igualzinha. Branquinha e loirinha puxando a mim e bem bochechudinha e com um nariz de bolinha de gude herdadas da mãe. Ao fechar a porta, prestei atenção no que me havia sido entregue. O celular da minha Neguinha – era assim que eu a chamava –, com uma mensagem de texto a ser enviada. “Meu amor, tenho uma surpresa maravilhosa. Me encontre na frente do prédio e vamos comemorar imediatamente. Eu sou a mulher mais feliz do mundo por tê-lo como marido. Eu te amo”. Até hoje não sei se foi bom ou ruim ler aquele recado... Mas qual seria o motivo de tanta felicidade? Nós estávamos brigados. Eu não percebera até então que ela já havia me perdoado. Lembrei-me que ela sempre dizia que o amor conserta e cola tudo como se novo fosse.
Entretanto, só fui perceber o motivo daquela alegria após o enterro. Ao chegar em casa a secretária do consultório médico Life ligou, informando que havia conseguido marcar a primeira consulta do pré-natal com a doutora Martha. “–Como assim?”, perguntei assustado. “–A sua esposa não lhe contou? Então pergunte a ela, ok?”. Após contar-lhe o ocorrido, o sigilo foi quebrado. “–Nossa! Sinto muito!”, embaraçou-se a secretária. Antes de desligar, ainda fiquei sabendo detalhes daquele dia inesquecível. A minha senhora Maria Eduarda havia ido ao consultório para levar ponto na mão após quebrar um copo. Quando chegou lá, ficou enjoada e vomitou muito. O médico, desconfiando de uma possível gravidez, passou-lhe um exame. Mas o pior ainda estava por vir: após o laudo de óbito, descobri que seriam gêmeos.
No fim do poço, perguntei o que mais poderia acontecer. Desempregado. Sem o amor da minha vida. E sem os filhos com que sempre sonhamos. Porém, o que mais me machucava é que há dias não nos falávamos direito. Há dias eu não dizia que a amava mais do que tudo e o quanto ela é importante pra mim. Há dias sequer dormíamos abraçadinhos. E isso tudo por ela desligou o estabilizador do computador enquanto era feito download de alguns arquivos que eu precisava para fazer um free-lancer. E ela apenas fez isso porque o monitor estava desligado para poupar energia. Ela se enganou! Pensou que eu havia esquecido o estabilizador ligado. Não havia por que proferir palavras tão perversas a ela. Todos nós somos passíveis de enganos. Eu perdi o controle por uma coisa tola... Infelizmente agora não tenho mais tempo!!!
Lembro-me bem da promessa que fiz a Deus no dia do nosso casamento. Eu prometi faze-la sempre rir, e, quando isso não aconteceu, Ele a tirou de mim. Essa é a única explicação. Que Deus é esse? Converti-me ao evangelho por causa dela. Outrora eu era herege. E agora? O que fazer? Após gritar, insultar e esbravejar muito com Deus, o choro acabou me levando ao sono profundo. O sonho me parecia verdadeiro e eu via a mesma situação da vida real, só um anjo aparecia enquanto eu duvidava desse Deus grandioso. E após eu repetir todos os insultos ao atento olhar angelical, ele apenas me retrucou com uma pergunta: “–O que você quer que eu diga?”. Aquela frase ecoou tão forte que acordei subitamente.
Não havia palavras que me confortassem. Não havia pessoa que trouxesse carinho. Não havia situação que me fizesse esquecer. Eu precisava não achar respostas, e sim me encontrar.
Mas como o amor de Deus é tão grande que chega a constranger, percebi o quão é importante cada minuto da vida. O quão é essencial viver sem pesar. E o quão é tênue a distância entre o real e o fim. E o quão é necessário saber viver. Muitas vezes ainda irei errar tentando acertar, mas hoje, dois meses depois, eu amo incansavelmente a tudo e a todos, não deixando nada pendente para o dia seguinte.