| Matéria ROBERTO BURLE MARX |
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Matéria do Jornal Laboratório da faculdade Pinheiro Guimarães (Set. 2004)
ROBERTO BURLE MARX: O INOVADOR
O PAISAGISMOS É A ARTE CADA VEZ MAIS NECESSÁRIA
Roberto Burle Marx foi o paisagista que inovou o conceito da arte das paisagens. Premiado internacionalmente se destacou por sua aguçada sensibilidade. Nascido em São Paulo, 4 de agosto de 1909, foi um artista de múltiplo, ou seja, fez de tudo um pouco. Desenhista, pintor, escultor, musico, cenógrafo, figurinista e criador de jóias e tapetes foram algumas profissões que tiveram a sua assinatura. Contudo, a sua maior expressão estava no paisagismo. Por causa dos seus vários dons trabalhou e conheceu pessoas não menos brilhantes, como Cândido Portinari, Lucio Costa, Oscar Niemeyer e Tarsila do Amaral, a qual o batizou de poeta dos jardins.
Roberto sempre mostrou-se preocupado com o equilíbrio ecológico. Obedecendo sempre ao critério da imunidade dos ecossistemas, a sua constante observação e percepção fez com que cruzasse e obteve várias espécies de plantas, as quais algumas levam o seu nome tais como: Calathea burle-marxii e Orthophytum burle-marxii. O seu Sítio de Santo Antonio da Bica, em Guaratiba, funcionava como laboratório particular. Nove anos antes de sua morte doou o sítio, com todo o seu acervo, à extinta Fundação Nacional Pró Memória, atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
O mais importante projeto paisagístico do artista Roberto Burle Max foi o Parque do Flamengo. Do Aeroporto Santos Dumont a Enseada de Botafogo, o aterro oferece as mais diversas atrações nos seus 1.200.000m² de área verde à beira-mar.
Em 1955 fundou em Laranjeiras, bairro da zona sul do Rio de Janeiro, a firma BURLE MARX & CIA LTDA. para elaborar projetos de paisagismo, fazer a execução e manutenção de jardins residenciais e públicos. Desde 1965, até seu falecimento, 4 de junho de 1994, aos 84 anos, contou com a colaboração do arquiteto Haruyoshi Ono, que ainda hoje dirige a empresa.
Por Roberto Burle Max não ter filhos e nunca ter se casado grande parte do seu saber é guardado com Haruyoshi, seu fiel escudeiro. E ele vai nos contar um pouco sobre a arte do paisagismo e quem foi Roberto Burle Max.
O que é paisagismo?
É uma arte em que agente cria uma paisagem para o homem, onde ele se sinta bem, onde ele possa usufruir da participação com a natureza.
Quais são as influências que o paisagismo sofre?
Na verdade é uma mistura de várias artes. Por exemplo, composição, botânica, principalmente, a aplicada a jardins e a estética. É preciso ter essas noções para se fazer uma composição paisagística.
Como surgiu o projeto paisagístico do Parque do Flamengo?
Surgiu da necessidade de se criar uma integração mais rápida do centro da cidade com a zona sul.
Como era o projeto inicial?
Inicialmente seria uma via que teria quatro grandes pistas ligando a região sul ao centro. E com influência da senhora Loca Soares junto ao governador Carlos Lacerda conseguiu-se transformar as laterais das grandes pistas em parte do parque. O importante era que fosse tudo muito arborizado para a população.
O que foi mais difícil para a conclusão do projeto?
Eu acredito que tenha sido aterrar.
Teria uma técnica imprescindível saber para se fazer um projeto paisagístico como o Parque do Flamengo?
Sim. É preciso que se saiba a composição do solo, pois ela é a matéria-prima de qualquer projeto paisagístico. É preciso se cercar por pessoas especializadas, como por exemplo, biólogos para que se saiba a uma espécie de sanidade das plantas.
O clima de um lugar influencia na elaboração de um projeto paisagístico?
Influencia e muito. Até mesmo para escolher o tipo de plantas a serem plantas.
O que acontecia com o Rio de Janeiro simultaneamente com a implantação do projeto?
Eu me lembro que era uma época mais ou menos de revolução. Politicamente era uma época bem conturbada.
Por que Parque do Flamengo é popularmente chamado de Aterro?
Parque do Flamengo é devido a praia do Flamengo. E Aterro é por causa da sua área aterrada. O que hoje é Parque do Flamengo antes era mar. Mais ou menos 8 milhões de metros cúbicos de terra foram tirados do morro Santo Antônio principalmente para fazer esse aterro.
O Aterro é um marco na história do Rio de Janeiro? Por quê?
Certamente. O parque deu acesso e maior integração a todas as classes sociais. De certa forma une mais a população.
Como você vê o Aterro de hoje comparado com ao da sua criação?
Eu vejo como um parque maduro. As árvores e as plantas evoluíram bastante. Nós conseguimos desfrutar das suas sombras. Era o que nós esperávamos.
Qual a parte do parque que mais lhe atai?
É difícil dizer. Eu gosto muito do parque como um todo. Mas realmente a parte que talvez eu mais goste seja não a da praia, mas a que fica em frente ao Outeiro da Glória, conhecida como Minhocão. É uma área antivista esteticamente porque uma área de estar e é bem tranqüila e arborizada. Eu gosto muito dessa parte.
Você já viveu algum fato que lhe marcou no Aterro?
A época que nós fizemos uma espécie de recuperação e revitalização no final do século passado foi muito marcante pra mim. Em 1997 nós começamos a fazer o diagnóstico de como o parque estava deteriorado e a partir daí foi feito um estudo e apresentado à Prefeitura. Então eles aceitaram que executássemos o projeto de recuperação. Chamamos de revitalização também devido as várias atividades que foram introduzidas.
Quando você pensa em Parque do Flamengo o que vem a sua cabeça?
Vida.
Qual a sua opinião sobre a administração do Aterro?
Eu vejo um pouco falha. Hoje em dia está um pouco melhor. Mas poderia melhorar ainda mais no aspecto de segurança e educação para as pessoas que freqüentam o parque.
O que pode ser feito para melhorar?
Educar os policias, a guarda municipal no sentido de ajudar a manutenção por parte dos usuários. Em parte esse serviço foi feito quando nós estávamos fazendo a recuperação do parque. Nós percebemos que em determinadas partes tinha muitos animais como gatos e cachorros, além de vários mendigos. Havia também muitas árvores queimadas devido as reverências religiosas e as churrasqueiras muito usadas nos fins de semana pelos usuários. Isso sem falar nas pessoas que arrancam as flores ou quebram os galhos. Essas ações predatórias foram minimizadas durante o período de revitalização com a ajuda da guarda municipal. Houve uma educação, institui-se uma maneira de como utilizar melhor o parque. Pena que isso não continuou...
O que você acredita que mais atrai as pessoas ao parque?
A necessidade de comungar com a natureza. São as áreas verdes. Uma área mais livre pra poder correr, andar, brincar.
O Brasil é um país próprio a projetos paisagísticos?
Eu acho que qualquer lugar. Qualquer região do mundo necessita de um paisagismo. Talvez o Brasil precisasse ter mais, pois o clima e o solo ajudam muito. Apenas nas ultimas décadas houve um incentivo maior a essa necessidade até devido a valorização do meio ambiente nos tempos atuais.
Como surge um projeto paisagístico?
Bem, um cliente nos procura precisando embelezar a sua área. Ele vê a necessidade de se arborizar de uma maneira mais coerente. Aí entra os escritórios especializados em paisagismo que compõem um jardim ou uma paisagem. O projeto vai de acordo com o espaço, clima, solo etc. Então é apresentado um croqui ao cliente, um ensaio de como será o projeto. E independente das instalações do terreno, por exemplo, sempre é possível fazer um projeto paisagístico.
Quem costuma encomendar projetos paisagísticos?
Normalmente pessoas particulares. Fora isso há uma grande oscilação dependendo da época e do governante. Hoje em dia, por exemplo, o predomínio dos nossos cliente tem sido de pessoas particulares.
O que significou o Aterro para a Burle Marx & Cia Ltda?
Esse projeto foi importante para a carreira do Roberto Burle Marx aqui no Rio de Janeiro, embora ele já fosse bem conhecido. Este não foi o primeiro grande projeto de parque. Antes ele havia feito o Parque Del Lest, na Nicarágua, que é bem parecido com o Parque do Flamengo. Um parque numa área urbana. Só que não houve a necessidade de aterrar nada. Então eu acredito que tenha sido importante no sentido de ter sido o primeiro grande projeto de aterro no Brasil.
O que significa Roberto Burle Marx para o paisagismo nacional?
Ele influenciou muito o paisagismo na maneira de compor, principalmente. A escolha da vegetação nativa foi um dos princípios marcantes. A vegetação sempre foi uma marca bem exuberante. As cores compunham a paisagem com pouca folhagem e muitas flores. Ele introduziu as formas abstratas criando uma grande escola, o que fez com que o Brasil parasse de imitar os jardins europeus, tais como: os italianos e os franceses.
Qual era a filosofia de Roberto Burle Marx?
Ele incutiu em nós, discípulos, a importância da flora nacional.
Como você se tornou discípulo de Roberto Burle Marx?
Aconteceu mais ou menos por acaso. Eu conhecia os seus trabalhos publicados em revistas e como estudante do segundo ano de arquitetura uma vez passando pelo Aterro do Flamengo, vi uma placa com o nome e telefone do escritório de Burle Marx. Então resolvi arriscar e pedi um estágio ao paisagista. E por surpresa fui aceito. Aí, me tornei desenhista e ao concluir o curso de arquitetura ele me convidou para ser associado da firma. Com o tempo eu fui absolvendo os seus ensinamentos ao ponto que no final da vida dele mesmo com um traço que já não era mais o mesmo eu conseguia interpretar e fazer os jardins. Eu adquiri muito a sua forma de compor.
O que mudou desde a sua morte?
Não muito. A forma de compor e de fazer os jardins continuam as mesmas. Ainda se utilizam as mesmas técnicas e as mesmas leis de se formar uma composição.
O que é a Burle Marx & Cia Ltda hoje?
Continua sendo um escritório de paisagismo. Fazemos projetos, detalhamos, além de fazermos a parte de manutenção e execução do jardins seja ou não de outros paisagistas. Nós possuímos uma chácara na Estrada da Barra de Guaratiba, 2275, Barra de Guaratiba, Rio de Janeiro, onde desenvolvemos as mudas que incrementam os jardins.
Quem foi Roberto Burle Marx para você?
Um mentor e um pai. Ele ensinou tudo o que sei sobre paisagismo. Desde a noção de estética até a implantação de novas plantas foi tudo introduzido por ele.
Como é vista a carreira de paisagista no Brasil?
Olha eu tive a sorte de ter seguido os passos do Roberto, mas é uma profissão muito difícil de se estabelecer e ganhar a vida. entretanto, uma vez conseguido os cliente vão aparecendo.
O que é preciso para ingressar na profissão?
Precisa primeiro ter boa vontade, perseverança, muita curiosidade para conhecer as plantas no seu habitat. Não é necessário que a pessoas seja desenhista ou arquiteta. O curso de paisagismo dado nas faculdades basta. Contudo, é indispensável que o profissional tenha sensibilidade e noções de estética.
O paisagismo é uma arte que muda com o tempo?
O paisagismo é uma arte efêmera. Se planta hoje, mas o trabalho nunca se completa pra nós. temos sempre que acompanhar o desenvolvimento do jardim. Não se pode esquecer que a vegetação é sazonal. Isso dificulta até pra mostrarmos para um cliente determinadas cores, ou seja, significa que um dia ou determinado tempo o jardim vai ficar assim...
Roberto Burle Marx por Haruyoshi Ono?
A arte do paisagismo. Em comum o apreciar a beleza da vida. Nossos gostos eram compatíveis em algumas coisas, como por exemplo o gosto pelo cinema, pela música. Porém, nós tínhamos personalidades bem distintas. Ele era uma pessoa extremamente extrovertida contrário de mim. ele gostava muito de receber as pessoas, era muito festeiro. Já eu sou bem tímido.
Quais as expectativas da paisagismo para o futuro?
Sempre haverá necessidade. Os olhos precisam de beleza, o mundo precisa de paisagistas.
Burle Marx & Cia Ltda
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