| TERAPIA PELAS PLANTAS |
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por Beto Costa |
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Cresci vendo meus avós receitando chás para aliviar dor de cabeça, garganta e má digestão. Bastava alguém ficar resfriado e pronto! A água já estava fervendo com Hortelã ou com a erva Assa Peixe. Sempre achei esse nome engraçado.
Já a minha irmã queria emagrecer. O objetivo era ter o corpo rotulado como o adequado pela televisão. Embora ela nunca conseguisse, o regime tinha como acompanhamento o chá de Boldo. Pra dieta, o mais correto é fechar a boca, coisa que ela deixa a desejar até hoje. Não sei como nunca entrou uma mosca em sua boca.
Contudo, acho que ninguém se valeu mais dos poderes das ervas do que a minha tia Maria. Costumávamos cantar “Bom dia, dona Maria, hoje é mais um dia que ficas pra titia.” Depois saíamos correndo ouvindo os gritos de que ainda nos puxaria as orelhas. Por muitas vezes a chamamos de bruxa por sempre estar fazendo simpatias estranhas e duvidosas. Acho até que ela demorou a se casar por minha causa. Muitas vezes acrescentei novos ingredientes à porção mágica. O gosto devia ser horrível, pois as caretas davam medo. O mais curioso foi que ela conheceu o grande amor da sua vida numa excursão ao Parque Nacional. Foi quando comecei a entender o dito popular que “Deus escreve certo por linhas tortas”. O cenário tinha que ser o verde mesmo!
Um vez flagrei minha mãe dando chá de Catuaba ao papai na noite das bodas de diamante. E assim as plantas passaram a ter uma relação íntima com a minha vida cotidiana.
Na frente da casa dos meus avós, onde toda a família se reunia nos fins-de-semana, havia uma pequena horta com Arnica do Mato, Alecrim, Carqueja e Erva Cidreira, ervas que não poderiam faltar. Eram os meus oito tios com seus respectivos filhos. A casa lotada era a alegria da minha vó Zezé que não se cansava em fazer guloseimas, como bolo, pudim, pavê, além do delicioso suco de manga. Num total de 14 primos, sentávamos em volta do vô Egídio, sempre ao fim da tarde, enquanto os pais discutiam futebol e as mães cochichavam e riam alto... Estava na hora da sessão comédia, havia sempre novos repertórios de piadas ou mágicas. Entretanto, nada começava antes daquele banho, não podíamos levar para baixo do coqueiro no meio do quintal o suor do pique. Estendiam-se toalhas e esteiras sobre a grama fofa, deitávamos com os olhares ansiosos. Numa dessas tardes o Rafa o questionou sobre a importância daquela horta. O quintal poderia ficar muito maior para brincarmos. O sábio velho olhou, sorriu e falou: “– O homem sempre buscou ajuda na flora, fosse para alimento, abrigo, roupa, armas ou remédios. As plantas sempre ofereceram espantosa demonstração de energia. A sua mãe mesmo usou muito essa erva aqui. A Agoniada é indicada para o tratamento da displasia mamária. Além disso, cuidar dessas plantinhas me traz uma grande felicidade. Vê-las crescerem bonitas e cheias de força me faz acreditar que o futuro pode ser plantado por nós”.
Lembro-me bem dos olhos cheios de lágrimas quando o meu avô começou a lembrar das coisas que não existem mais. Como, por exemplo, do gosto da fruta extinta, da cidade arborizada e do cheiro das plantas que se avistava ao longe. Naquela tarde ele não nos fez rir ou nos intrigou fazendo moeda aparecer atrás das nossas orelhas. Disse que já estávamos crescendo e que dali a algum tempo esse nosso hábito terminaria, pois encontraríamos novas necessidades. Assustados, olhamos uns para os outros e calados permanecemos sentados. Ele olhou para todos – parecia que o seu olhar dizia algo específico a cada um de nós –, suspirou e começou:
“–Meu queridos, não desprezem o poder da natureza. Ela está tão pertinho, mas a nossa pressa faz com que a ignoremos. Não a considere como supertição, pois todo o saber é extraído dela...” E assim ele falou por mais ou menos uma hora. Foi incrível ver a devoção que aquele velhinho tinha pela natureza. Ele nos fez despertar para os cuidados que devemos ter com a preservação e como podemos nos enriquecer trazendo-a para o nosso dia-a-dia.
Talvez tenha sido essa a maior influência por hoje eu ajudar a ciência a reafirmar o antigo saber intuitivo e de observação da natureza a ampliar cada vez mais os horizontes da fitoterapia. Há dois meses transformei a antiga casa dos meu avós no laboratório que produz medicamentos basicamente formulados a base de plantas medicinais. No meu juramento de formatura, enquanto todos estendiam a mão repetindo o código de Medicina, eu jurava sempre buscar descobrir propriedades curativas nas ervas.
Confesso não saber dizer se foi aquela estória ou a doce forma como meu avô a explicou que fez desencadear coisas em mim, como, por exemplo, a minha percepção e a minha maneira de pensar. Todavia, gosto de pensar que o todo tenha sido o pontapé inicial para a minha escolha profissional. Talvez aquela estória tenha funcionado como um vínculo, um canal de comunicação que escapa ao controle do social. Talvez tenha se aberto uma dimensão dentro de mim que evidencia como sempre estamos nos vinculando a determinados acontecimentos. Seja lá o que for, hoje em dia, mesmo tendo um nome a zelar como médico homeopata, sempre que possível eu planto algumas sementes exatamente como o meu avô fazia. Afinal, as plantas não constituem apenas matérias-primas para a minha produção industrial, e sim um véu de beleza, alegria e saber. |
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