| MEU COELHO DE CRIAÇÃO |
|
| |
por Beto Costa |
| |
Voltar para a cidade onde passei toda a minha infância é sempre muito prazeroso. Uma sensação apressada e alguns momentos até angustiantes invadem o corpo sem pedir licença à alma e aceleram o coração. É como se o viajar no tempo fosse possível. Ainda sinto o medo de quando pulamos na casa da vizinha para pegar a bola de futebol. A portuguesa sempre a furava. Bastava um quique no quintal para a galega surgir com a tesoura na mão. As cores permanecem vivas de quando o Joãozinho, o último a pular de volta o muro, ficou rebolando com as mãos na cintura enquanto a amargurada moradora da casa azul nos xingava de palavrões que eu só vim a conhecer com o avançar da idade. Ah, quanta saudade!
É verdade que muita coisa mudou. As amendoeiras na porta de cada morador não existem mais. Muitos amigos se casaram, outros se mudaram e alguns sumiram. Tem até aquele que não fala mais com ninguém por ter um emprego melhor do que os demais. Contudo, assim é a vida. Conquistas, lamentações, diferenças e lembranças. E por falar em coisas que se apresentam em um dado momento na memória, a Praça Treze de Maio foi o que mais mudou. Agora ao seu redor há um grande supermercado e não mais o mercadinho do seu Manoel. Há também filiais de fast food, de farmácias e até de locadoras. Mas nada me chamou tanto a atenção do que uma portinha fechada dentre a selva capitalista que ali nascera. É incrível! Nas paredes descascadas o resíduo da cor rosa da loja do senhor Armando, uma espécie de pet shop de hoje em dia. Ali vendiam-se acessórios e muitos animaizinhos. Periquitos, peixinhos coloridos que não viviam mais do que um mês, cachorros e gatos de raça... Era uma lojinha bem acolhedora. A única coisa que eu detestava era o mal cheiro das galinhas. Talvez seja por isso que eu não coma a carne delas até hoje.
Pedrinho e eu sempre que voltávamos do colégio fazíamos questão de andar um pouco mais para passar pela loja. Ficávamos namorando os animais engaiolados. Às vezes, dependendo do movimento, o senhor Armando deixava pegarmos no colo os cachorrinhos. Ele sabia que adorávamos bichos mas que os nossos pais proibiam. Entretanto, nenhum animal exercia maior fascínio do que o coelho. Eu ficava completamente hipnotizado pelo pequeno roedor. O pêlo branco feito uma bolinha de algodão e os olhos vermelhos que quase não piscavam me conquistaram. O seu nome foi uma homenagem ao amigo albino de sala de aula, Osmar. Eu ficava intrigado como aquele animalzinho tão fofinho só comia e dormia. Ele não emitia som algum. Até então eu só conhecia coelho pelos desenhos animados. Era sempre assim, primeiro o dever de casa depois o desenho do Pernalonga. Ainda ouço minha mãe dando a ordem.
Com o passar de alguns dias me conscientizei de que eu tinha que comprar o Osmar. Essa certeza se solidificou depois que o senhor Armando disse que quem o comprasse iria matá-lo para comer. Como alguém poderia ser tão perverso a ponto de matar um bichinho tão gracioso e inofensivo? Juntei a mesada mais o dinheiro de duas semanas sem comer nada no recreio e comprei o pequeno mamífero de orelhas compridas.
O levei dentro da mochila até chegar em casa. Abri a porta e subi correndo para o quarto ouvindo minha mãe dizer que o almoço já estava na mesa. Foi só colocar a mochila no chão e abrir o fecho para ele sair pulando. A liberdade parece ser um bem precioso muito mais apreciado pelos seres chamados irracionais do que por nós humanos. Logo percebi que o pequeno Osmar adorou o meu travesseiro e detestou meu sapato escolar preto. Fiquei com medo de quando ele avançou. O meu grito chamou a atenção de todos na casa que vieram correndo saber o que havia acontecido. A minha irmã adorou o coelhinho e foi logo puxando-o pelas orelhas. Por surpresa, a minha mãe franziu a testa, como costumava fazer quando ficava com raiva, mas não me repreendeu. Talvez tenha sido por a minha irmã ter dito que agora não precisava mais ela nem o papai passar a noite inteira pintando patinhas de coelho pela casa na Páscoa. Agora tínhamos um coelho de verdade para esconder os ovos.
O papai acatou e gostou da idéia de termos um animal de estimação. E foi logo fazendo uma casinha na área de serviço. Rapidamente o Osmar passou a fazer parte da família. Nos passeios, nas viagens e nas festas de aniversário ele sempre saía nas fotos. Até para a escola ele foi! Ele fez parte do meu projeto da feira cultural sobre a associação da imagem do coelho à tradicional festa da Páscoa. Esse dia foi muito divertido, pois um pedaço de barbante era a coleira do Osmar. Muito arteiro, não demorou a se soltar e sair pulando e se escondendo. Embora os coelhos sejam animais dóceis, ficam estressados quando ouvem muito barulho. E com uma orelha de quase 15 centímetros imagino o quanto ele consegue ouvir. O resgate do pequeno roedor parou o evento. Ninguém mais queria saber o significado da Páscoa ou se os coelhos simbolizavam a fertilidade. Entretanto, o Pedrinho continuava proferindo o seu texto para a banca de professores, enquanto o resto do grupo era driblado pelo pequeno roedor. O Osmar teve o seu dia de fama e nós também por termos sido o único grupo em toda a história do colégio que tirou menos do que sete. Por muito pouco não ficamos em recuperação. O bom desse episódio foi que fiquei mais popular no colégio do que os meninos do time de futebol. E mesmo a roupa ridícula de coelho não impediu o meu primeiro beijo após conseguir pegar a Bola de Algodão – foi assim que o Osmar ficou conhecido.
O meu fiel amigo orelhudo viveu por mais quatro anos. Foi a minha irmã quem descobriu que ele havia morrido. Lembro-me da maneira desesperada de como chorava acordando todos na casa. Meu pai, que havia saído pra comprar pão, largou as compras e entrou correndo. Eu fiquei trancado e isolado no quarto por dois dias. E só não fiquei mais por me lembrar que o coelho representa a Páscoa por simbolizar a ressurreição, o renascimento. Assim, enchi-me de coragem e abri a porta. Após o primeiro passo aprendi que o tempo é tudo o que tenho. É estranho, mas um vazio me dominou. Talvez, por eu saber como é difícil recomeçar... Todavia, um ditado é certo: recordar é viver. E, quando possuímos essa capacidade, os degraus da vida não parecem tão altos. |
|