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DOCE DESCOBERTA
por Beto Costa
  por Beto Costa
  Não sou adepto a nenhuma religião. Aliás, ultimamente tenho transparecido uma imagem de ateu. Contudo, falta-me coragem para assumir essa postura. Tenho alguns amigos religiosos que de vez em quando me ligam, mandam torpedos ou até e-mails me convidando para participar de cultos abençoados. Prometem que a minha vida irá mudar. Passarei a prestar mais atenção nas pessoas que estão ao meu redor e até arrumarei um verdadeiro amor, como nos contos de fadas. Outros mais fervorosos dizem que sou uma boa pessoa e por isso preciso ouvir e seguir a palavra da salvação. Caso contrário, estarei traçando o meu ingresso à eterna perdição. Tudo bem! Religião não se discute. Mesmo porque toda fé é cega. Admito que em algumas ocasiões visitei alguns salões e até orei como um adepto. É preciso conhecer tudo. Como jornalista não posso ter preconceitos. Da umbanda ao cristianismo eu consigo ter a minha opinião formada. Por isso, lendo tanto o Alcorão como a Bíblia, percebi algumas semelhanças. O que me chamou atenção foi que ambos fazem citações sobre um pequeno inseto que coleta pólen e constrói os ninhos com cera. Além disso, essa criaturinha ainda é responsável, segundo as escrituras sagradas do cristianismo, pela primeira substância adoçante conhecida da Antiguidade, o mel. Considerado dádiva e até mesmo néctar dos deuses, esse produto, além de excelente alimento, tem sido fonte de inspiração no decorrer dos milênios. No Antigo Egito, por exemplo, explicava-se a origem do mel como fruto das lágrimas vertidas pelo deus do sol Rá. Já na mitologia grega, o bebê Zeus, deus soberano no Monte Olimpo, alimentava-se do mel que as abelhas punham sobre seus lábios.
Se não me falha a memória, foi no Alcorão que percebi como os corpos grandes chamam a atenção de qualquer um. E que os pequenos, porém, são praticamente desprezíveis. Isso só muda quando passamos a conhecer algo sobre. Confesso que até então nunca havia pensado ou percebido a importância das abelhas. Pra mim não passavam de insetos como outro qualquer. Entretanto, a curiosidade, qualidade que me é peculiar, instigou-me a querer saber mais sobre a vida delas. Comecei a pesquisar mais e mais. Eu ficara fascinado. A minha primeira descoberta foi que antigamente havia a crença de que sonhar com enxames era um presságio de prosperidade. E talvez por esse motivo, ainda hoje, utiliza-se em muitos países a expressão lua de mel.
Assim, me transformei num verdadeiro obcecado pelas criaturinhas “instintivamente sábias”, como ressalta a Bíblia. Sempre que chegava em casa após o trabalho lia livros sobre criação de abelhas, fazia pesquisa na internet e até participava de fóruns virtuais promovidos por apicultores. Cheguei a pensar em largar o jornalismo para investir no agro-negócio. Com certeza no fim do mês eu teria um retorno mais rentável de capital. Mas essa idéia foi logo dizimada. Eu não consigo largar essa minha profissão. Isso não é uma carreira e sim um vício. Contudo, resolvi ter uma outra ocupação em paralelo. Com o dinheiro do FGTS, comprei um pequeno sítio e fui brincar de ser apicultor. Um hobbie que tentei conservar até pouco tempo atrás.
A idéia de criar abelhas parecia fácil e simples. Eu já tinha muita informação sobre o assunto. Conhecia a estrutura das colméias e a organização social desses adoráveis insetos. Eu sabia até quais produtos produzir através da apicultura. Além de algumas curiosidades, como, por exemplo, que as abelhas conseguem enxergar os raios ultravioleta, os únicos que penetram as nuvens. Com isso, não importa se o tempo está encoberto, elas conseguem ver a luz que indica os locais onde possui alimento, não morrendo de fome quando o sol se esconde atrás das nuvens.
Todavia, a minha primeira lição foi que se tornar um apicultor não é tão fácil quanto parece. Não era apenas conseguir algumas colméias com colônias de abelhas, colocá-las numa região nectarífera e voltar algum tempo mais tarde para colher o mel e seus derivados. Logo logo percebi que era necessário muita dedicação. Aprendi que eu deveria ser um pai e um médico para as pequenas voadoras. Eu precisava estar presente do verão ao rigoroso inverno. Era necessário que eu soubesse desenvolver a apicultura migratória. E era imprescindível que eu tivesse sensibilidade para perceber se estava tudo bem com a colônia, se estavam órfãs porque a rainha morrera; se estavam agitadas devido a algo desagradável dentre outras... Na verdade, eu nunca tive tempo e, admito, nem paciência para observar tantos detalhes. Eu queria mesmo era o resultado final. Eu queria ganhar dinheiro com o mel, a própolis e a geléia real. Até que por algum tempo os tipos de méis, que variam de acordo com as flores visitadas pelas abelhas, me renderam uma boa renda extra no final do mês.
Com o passar do tempo, meus dois irmãos mais meus quatro sobrinhos que acreditaram no projeto do apiário Néctar de Mel desde o começo foram tomando conta do investimento. Tornei-me cada vez mais dispensável, embora a ultima palavra sempre fosse a minha. Passei então a me sentir mais um. Eu não tinha nem mais idéias pra ampliar os negócios. Na verdade, aquilo não passava de uma brincadeira, de uma forma de lazer. Todavia, os meus sócios não viam assim. Eles queriam crescer. Eu percebia a devoção e o orgulho deles em ser apicultores. Foi quando percebi que não estávamos mais na mesma sintonia, embora nunca tenhamos discutido. Mas não fazer mais parte da engrenagem me incomodava profundamente. Então as minhas pesquisas cessaram. Eu não tinha mais vontade de escrever o livro sobre receitas culinárias mundiais com base no mel. Nesse momento resolvi vender a minha parte da sociedade.
Hoje, sozinho aqui em casa, pego na instante a pasta onde ainda guardo vários assuntos sobre a apicultura. Vejo textos, revistas, curiosidades... Rio sozinho com a foto em que apareço vestido com luvas amarelas, botas enormes, macacão branco de algodão todo folgado e com aquele chapéu de aba larga e com véu. Eu parecia até Neil Armonstrong, ao pisar na Lua em 20 de julho de 1969. O mais cômico nesse dia foi que, enquanto eu fingia ser um astronauta simulando a órbita lunar, o meu irmão disse: "– É um pequeno passo para um homem, mas um gigantesco salto para a Humanidade". Não teve quem não risse. É incrível como as lembranças proporcionam um gozar da vida pela segunda vez. Elas também nos fazem refletir, crescer... Dizem que tudo tem uma razão de ser e embora eu seja bem incrédulo a certas coisas esse episódio com as abelhas me obrigou a perceber que o importante na vida é a direção para a qual nos movemos.